quarta-feira, 1 de abril de 2015
Tenho Saudades da Carícia dos Teus Braços
Tenho saudades da
carícia dos teus braços, dos teus braços fortes, dos teus braços
carinhosos que me apertam e que me embalam nas horas alegres, nas horas
tristes. Tenho saudades dos teus beijos, dos nossos grandes beijos que
me entontecem e me dão vontade de chorar. Tenho saudades das tuas mãos
(...) Tenho saudades da seda amarela tão leve, tão suave, como se o sol
andasse sobre o teu cabelo, a polvilhá-lo de ouro. Minha linda seda loira,
como eu tenho vontade de te desfiar entre os meus dedos!
Tu tens-me
feito feliz, como eu nunca tivera esperanças de o ser. Se um dia alguém
se julgar com direitos a perguntar-te o que fizeste de mim e da minha
vida, tu dizes-lhe, meu amor, que fizeste de mim uma mulher e da minha
vida um sonho bom; podes dizer seja a quem for, a meu pai como a meu
irmão, que eu nunca tive ninguém que olhasse para mim como tu olhas, que
desde criança me abandonaram moralmente que fui sempre a isolada que no
meio de toda a gente é mais isolada ainda.
Podes dizer-lhe que eu tenho
o direito de fazer da minha vida o que eu quiser, que até poderia fazer
dela o farrapo com que se varrem as ruas, mas que tu fizeste dela
alguma coisa de bom, de nobre e de útil, como nunca ninguém tinha
pensado fazer.
Sinto-me nos teus braços defendida contra toda a gente e
já não tenho medo que toda a lama deste mundo me toque sequer.
Florbela Espanca, in "Correspondência (1920)"
domingo, 22 de março de 2015
Como é que se Esquece Alguém que se Ama?
Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se
esquece alguém que nos faz falta e que nos
custa mais lembrar que viver?
Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar?
Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a
pessoa de quem se precisa já lá não está?
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.
É preciso aceitar esta mágoa esta
moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá
cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a
tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução.
Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o
peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos,
aceitando que não têm solução.
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injeção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumulasse-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.
Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'.
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
Partiste mas..
Cinco anos de Saudade..
Partiste...mas não partiste...
Te foste embora...mas ficaste...
Tua ausência apenas ressalta o vazio
Mas o vazio está cheio de ti, que te ausentaste...
Partiste, mas não levaste
Nenhum dos nossos momentos...
Nenhum dos nossos sorrisos,
Nenhum dos instantes que vivi contigo...
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de Janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
Parabéns a todos aqueles que souberam se reinventar
Parabéns àqueles que reconheceram seus fracassos e souberam o tempo de desistir.
Parabéns àqueles que entenderam suas impossibilidades e os seus próprios limites.
Parabéns àqueles que reconheceram seus defeitos sem estender seus efeitos a mais ninguém.
Uma salva de palmas para aquele que dispensou o outro do compromisso de continuar sofrendo a dois; quando descobriu que ao se libertar, libertava o outro também.
Parabéns àqueles que lidaram com os saltos no abismo "apesar de", e que souberam o tamanho das próprias pernas.
Parabéns àquele que não se corrompeu diante das suas carências, não se permitindo coisas que em outra época jamais se permitiria.
Parabéns àqueles que enfrentaram com coragem seus medos, dispensando apegos e quaisquer outras muletas de que poderiam se servir para continuar caminhando.
Um brinde àqueles que não empalharam o amor para garantir sua presença e seu uso de qualquer jeito nos amanhas.
Um brinde àqueles que aprenderam o tempo certo de se despedir; que com gratidão ou dignidade e sem nenhuma dose de veneno aprenderam a sair de cena, aproveitando a hora certa para evitar sufocamentos.
O meu respeito àquele que, mesmo sem saber de nada, apóia-se nas suas próprias verdades.
A minha admiração àqueles que encararam seus vazios sem preenchê-los com qualquer coisa; que não se contentaram com o discurso de que "é o que tem para hoje", de que "a vida é assim" e portanto, "contente-se, resigne-se, acomode-se".
Parabéns àqueles que mesmo sem saber para onde seguir, seguem, porque sabem que a alma empoeira e envelhece se parar por entre os dias.
Parabéns àqueles que descobriram que a tristeza pode ser uma importante lição, mas uma aula desnecessária.
Parabéns àquele que não ficou apenas esperando a cura do mal; que é fiel consigo mesmo perante sua própria consciência, que não deixou seus monstros se reproduzindo no abafado escuro da sua inconsciência.
Autor desconhecido
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
Subscrever:
Mensagens (Atom)



